Pardais da Sardenha

Em 27 de março de 2013

— Por Marcos Rodrigues* —

Passer domesticus, por Wilhelm von Wright (1810–1887) [Domínio público], via Wikimedia Commons

 

Pardais. Quem não os conhece no Brasil? Vivem por toda a cidade e têm um canto nada melodioso. Sua coloração também não nos chama a atenção. Quem dá bola para um pardal, afinal? Espécie exótica. Introduzida pelos lusitanos para controlar insetos no Rio de Janeiro. É o que dizem. Lusitanos. Hoje, os pardais, Passer domesticus, estão aí, e nada fazemos por eles, nem contra e nem a favor. Os ignoramos. São quase fantasmas.

Dentro deste contexto, nunca me interessei muito por pardais. Mas durante meu trabalho de graduação, estudando a avifauna das praças de Campinas, junto com meu colega e artista Ricardo Pucetti, tive que observá-los e contá-los.

Cansado de pardais, confesso que pelas minhas andanças na península Itálica jamais prestei atenção a um deles. Foi apenas nestes dias de calor intenso, num verão típico da Sardenha, quando vinha scirocco, o vento quente que chega do Saara, trazendo a agradável marca dos 41 graus centígrados, que reparei um pardal no quintal de casa.

Com o binóculo percebi que o mesmo tinha o peito todo estriado, uma cara mais achatada e um bico levemente mais fino que o nosso Passer domesticus. O que seria um pardal com peito e ventre estriado? Imediatamente fui ao guia Gli uccelli della Sardegna, de Salvatore Caredda, o qual carrego por toda parte, e aprendi que se tratava de Passer hispaniolensis. Para minha surpresa, e segundo o guia, P. domesticus não ocorre na ilha. Há sim, outro Passer, o P. montanus.

 

 

Passer hispaniolensis (acima à esquerda), Petronia sp. (acima à direita), Passer domesticus (abaixo, à frente), Passer montanus (abaixo, atrás), por Alfred Brehm (1829-1884) (Brehms Tierleben. Volume 2) [Domínio público], via Wikimedia Commons

 

Passer domesticus é o nosso pardal comum, que ocorre na maioria das cidades do leste do Brasil. O pardal foi introduzido no Brasil por volta de 1906. O melhor relato sobre a disseminação do pardal no Brasil ainda é do grande naturalista e ornitólogo Helmut Sick, cujos textos a seguir são transcritos de sua obra ‘Ornitologia Brasileira’.

 

“Consta que o pardal foi introduzido no Rio de Janeiro em 1906 por Antônio B. Ribeiro, que trouxe de Leça da Palmeira, Portugal, 200 indivíduos, para soltá-los no Campo de Santana, tendo a aprovação do prefeito Pereira Passos; alegaram colaborar com Oswaldo Cruz na sua campanha de higienização da cidade pois os pardais eram considerados inimigos dos mosquitos e outros insetos transmissores das enfermidades que então grassavam no Rio”.

“Decisiva foi a construção de estradas, sobretudo após a fundação de Brasília (1957) e o subsequente aumento de tráfego. Antes desse desenvolvimento moderno, a disseminação do pardal seguiu sobretudo as poucas estradas de ferro existentes e também os rios como importantes caminhos de comunicação no interior. Vimos em Pirapora (1973) como o pardal viaja nas grandes embarcações, na parte mineira do rio São Francisco, como passageiro clandestino; é possível que assim tenha alcançado Petrolina e Cabrobó (Pernambuco, 1971) na margem setentrional deste rio”.

“Não falta absolutamente iniciativa própria no pardal para conquistar novas áreas; aparece p. ex. em fazendas distantes de núcleos urbanos, como registramos no Rio das Mortes e no Pantanal (Mato Grosso)”.

“Em Belo Horizonte (Minas Gerais) o pardal já era comum em 1912, tendo sido levado para a cidade recém fundada mesmo antes de 1910”.

“Em 1982 pardais foram encontrados no Colégio do Carmo, Balbina, rio Urubu, perto de Manaus, Amazonas. Em Manaus mesmo foi registrado apenas em 1987”.

“Foi uma grande surpresa encontrar pardais no Atol das Rocas, ilhas sem água potável (250 km do continente, 150 km a oeste de Fernando de Noronha), em março de 1971, observando-se um casal junto às ruínas da casa do faroleiro, com a plumagem em péssimo estado. Conseguiram sobreviver, oportunistas que são, comendo pequenas beldroegas-da-praia (Portulacaceae?) e pulgões-da-praia (minúsculos crustáceos). Reproduziram-se, e dez anos depois (1985) foram contados 16 indivíduos, aparentemente em estado razoável de saúde”.

 

Achei que fiz uma grande descoberta! Estou num local onde não existe Passer domesticus! Mas existem outros Passer. Isso não é incrível? Agora procuro avidamente por um Passer, seja ele hispaniolensis ou montanus. Nada como o novo, mesmo em se tratando de um mero pardal.

 

Passer montanus, por Laitche [Domínio público], via Wikimedia Commons

* Marcos Rodrigues é doutor em Zoologia pela Universidade de Oxford. Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Minas Gerais, onde chefia o Laboratório de Ornitologia, e é curador da Coleção Ornitológica.



  • Lídia Maria de Oliveira Morais

    O pardal, com seus hábitos generalistas, conquistando o planeta, mesmo assim parece ter suas preferências, e um calor de 41 graus não parece ser muito agradável nem para ele… confere?

  • Christiane

    Parabéns pelo texto. Um bom exemplo de uma espécie com boa capacidade de dispersão e adaptação à diferentes ambientes. Aprendizado produzido pela observação. Na correria da vida fazemos pouco isso.

  • http://www.facebook.com/people/Fabio-Olmos/100001171910780 Fabio Olmos

    Pardais estão entre minhas aves favoritas e ainda quero ver todas as 26 (or so) espécies de Passer. Uma coisa interessante dos pardais “domésticos” italianos é que são uma espécie distinta, Passer italiae

  • Veronica Magalhaes

    Adorei este artigo ,muito rico em detalhes, Marcos escreve tão bem que acabo visualizando que ele escreve, está de parabéns novamente!

  • Ananda Portela

    Segundo o site http://ibc.lynxeds.com/ , os Passer domesticus e o montanus são os mais bem distribuídos geograficamente. Os outros todos encontram-se na África(18), Asia(4) e sul da Europa: (2).

    Os mais bem distribuídos são Passer montanus e Passer domesticus, sendo que, das 26 espécies, somente o Passer domesticus é encontrado na América do sul. E o Passer montanus, no ‘novo mundo’, é encontrado somente na América do norte, mais especificamente em Missouri- EUA. Nenhuma outra espécie é encontrada nas Américas.

    ‘A Europa quis domesticar não somente a América do Sul.’ (Ananda, 2013, 03:21) E, eles sabiam o que estavam fazendo…

    ‘A influência africana na fauna neotrópica, p. ex. a existência da família Trogonidae, em ambas as áreas, documenta uma antiga conexão entre os dois continentes cuja separação começou no Cretáceo, há mais de 60
    milhões de anos. No Terciário (Eoceno), há 40 milhões de anos, a distância dos dois continentes ainda não era grande (Short 1971).’ Sick, 2ªEd.

    Interessante. Com o Passer domesticus habituado a ambientes antropizados, consideraram de valia traze-los(?!). Resta entender como eles não viraram praga. Ou viraram?

    ‘Distribuição Geográfica: Potencialmente ocorre em todo território brasileiro, sendo restrita à áreas com ocupações humanas.’ wikiaves.br

    O que inclui, desde a pouco tempo, plantações e pequenos sítios interioranos.

    Bom, não sei ainda se o wikiaves é uma confiável fonte cientifica mas,

    pra relaxar: ‘Foi observado no Rio de Janeiro, Botafogo, que o pardal se banha na copa das ávores se esfregando nas folhas úmidas proveniente de sereno e chuvas’ WikiAves.br . :)

    Marcos, super inspirador o seu texto!!!! de verdade.

  • Ananda Portela

    Me desculpe, vou ter que compartilhar uma nova espécie: http://www.youtube.com/watch?v=uSb7R4YtuLU Gênero Jack. Espécie Sparrow. Familia: Piratidae Ordem: Libertiformes ; Nicho: Habitat: marinho. Ninho: feitos de madeira flutuante. Vai até os litorais caçar quando em escassa food. Alimento: Rum. Curiosidade: não vê imagens fixas, mesmo quando estão imóveis… como algumas espécies de mosquitos, pode ver ‘ao quadrado’. Adorei as novas descobertas!! Também gostaria muito de o ver!! Boa noite!

  • Julliane Joviano

    Não sei por que as pessoas implicam tanto com os pardais? Gosto deles..

  • Marco Aurélio Pizo

    Pardais são mesmo aves negligenciadas, simplesmente por serem comuns e urbanos. Não tem o apelo de outras aves mais raras e de difícil observação, mas são igualmente interessantes. Parabéns pelo texto Marcos!

  • Artur Miranda

    Os pardais são realmente aves muito negligenciadas. O que me deixa curioso é o fato de que a maioria das espécies introduzidas e/ou invasoras ganham muito destaque, pelo menos dentro da comunidade científica, pela ocupação de nichos e competição por recursos. Sendo o pardal uma espécie tão oportunista, ele não poderia estar envolvido em alguns desses processos? Exitem estudos nesse campo?
    Artur

  • Marina

    Legal o texto, interessante como o Pardal está no mundo todo mesmo… Lendo esse texto, me deu vontade de voltar no tempo nas viagens que fiz ao exterior, e observar se encontro o Passer por lá… hahaha

  • Marina Scarpelli

    Muito bom, Marcos! A riqueza de detalhes dos seus textos fazem parecer que estamos realmente vivenciando tudo isso que foi descrito!

  • Yuri Caldeira

    Realmente, o pardal aqui é quase como um fantasma! Excelente descrição. E a forma como ele se disseminou pelo território brasileiro é fascinante. Eu nunca imaginei que ele pegasse carona em barcos e outros veículos. Ele definitivamente está adaptado à vida junto aos seres humanos. É quase injusto pensar que o pardal pode ser ignorado dessa forma. Uma espécie com tamanha distribuição geográfica e tão bem adaptada a um ambiente extremamente alterado em relação ao natural é digna de mais atenção. Me frustra realizar que também sou culpado por ignorar uma espécie interessante apenas por ela ser comum.

  • Ana Paula da Silva

    A distribuição dos pardais por vários Estados do Brasil realmente impressiona…
    Mas não só no Brasil, como em outros continentes. Os hábitos generalistas e a fácil adaptação a diversos ambientes fizeram com que os pardais ocupassem as grandes cidades. É comum ver pardais comendo restos de alimentos nas mesas e no chão do restaurante universitário da UFMG.

  • http://www.facebook.com/thalita.ferreira.1840 Thalita Ferreira

    Gostei muito de saber mais um pouquinho sobre os pardais! São lindos e realmente passam completamente despercebidos!

  • http://www.facebook.com/barbara.hannelore.7 Barbara Hannelore

    Um dia desses observei um pardal aqui em casa bicando uma caixa de isopor e levando os pequenos pedaços para construir o ninho no telhado! Muito massa!

    • http://www.facebook.com/vinicius.cerqueira.775 Vinicius Cerqueira

      Esses aí capricharam no isolamento térmico!

  • Camila Marani

    Ah! Eu gosto do canto dos pardais… acho eles bonitinhos, eles têm um ar de vira-lata… rsrsrsrs

  • Pablo Burkowski Meyer

    Belo texto!
    Fico pensando se fora apenas Antonio Ribeiro o responsável pela introdução desta espécie no Brasil… Acho pouco provável.

    Um estudo realizado por Lima, M.R. (2012) confirma uma variação genética menor para os pardais do Brasil em comparação com as populações europeias, mas curioso é o fato de uma população em Canoas, cidade no sul do Brasil, apresentar diferenciação genética quando comparada a outras populações no país. Segundo o mesmo autor, foram introduzidas populações de pardais em Buenos Aires em 1872 e no Uruguai em 1888, o que poderia explicar certa miscigenação entre as populações do Rio de Janeiro, da Argentina e Uruguaia. Então fica a pergunta: qual população teria conquistado o Brasil primeiro?

    O trabalho citado pode ser acessado em: http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/11260/1/2012_MarcosRobalinhoLima.pdf

    • http://www.facebook.com/vinicius.cerqueira.775 Vinicius Cerqueira

      Excelente contribuição!

  • Uschi Wischhoff

    Olhar sem ver é um mal de todos… Precisamos constantemente nos forçar a reabrir os olhos para não perder o deslumbramento com a vida. Ninguém quer viver num mundo cinza. Ou num mundo em que toda ave é igual!
    Adorei o texto!

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