Uso Público e Conservação da Biodiversidade: Um sonho possível, mas que exige empenho

Em 3 de junho de 2013

 

— Por Flávio A P Mello *—

 

 

Desde a Rio 92, assistimos ao crescimento da visitação em unidades de conservação brasileiras, com a popularização das práticas de lazer, esporte e das diversas segmentações do turismo na natureza, como o ecoturismo, o turismo de aventura e de observação de fauna. Contudo, mesmo com a evolução das metodologias de monitoramento e diagnósticos socioambientais para gestão do uso público em áreas protegidas, muitos impactos na flora e na fauna são de difícil percepção e mensuração, por limitações tanto técnicas quanto em recursos humanos e materiais.

No Brasil, a maior parte das atividades de lazer, esporte e turismo na natureza se desenvolve em parques, que são unidades de conservação de proteção integral criadas, entre outros motivos, para a conservação de populações de espécies da flora e da fauna in situ, mas que permitem uso antrópico controlado e restrito. O aumento da visitação nos parques brasileiros e, consequentemente, o aumento dos territórios para uso público dentro destas unidades de conservação significam, na prática, a diminuição do território de outras espécies menos tolerantes e levam, com isso, a alterações nas dinâmicas das populações de algumas das espécies protegidas.

Neste arranjo espacial, a importância do elemento humano na conservação de espécies e viabilidade das unidades de conservação é vital, pois são as decisões políticas de cada sociedade que definem quais elementos da natureza estarão presentes ou ausentes no mundo que seus filhos receberão. Deste modo, a consolidação de atividades de lazer na natureza, sobretudo as derivadas de caminhadas e trilhas, de certa forma, resgatam nossa própria memória ancestral, pois foi caminhando que ocupamos todos os biomas do planeta.

Neste sentido, a discussão sobre a dinâmica ecológica das trilhas no que tange à gestão do uso público em áreas protegidas e e à manutenção da biodiversidade ainda é muito pouco explorada. Tanto a criação de trilhas quanto a consolidação de roteiros tendem a se fundamentar muito mais no potencial de uso turístico do que na gestão do patrimônio natural protegido, dada a complexidade do tema e aos escassos recursos disponíveis.

 

 

 

Por isso, o II Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas com o tema “Uso Público e Biodiversidade: Desafios de gestão e governança em áreas protegidas” propõe um amplo debate sobre a gestão de áreas protegidas a partir da análise dos aspectos geográficos e ecológicos do manejo de trilhas, buscando responder a perguntas como:

  • O fluxo e o comportamento dos visitantes nas trilhas pode interferir na dinâmica de populações animais e vegetais e significar um risco à sua manutenção?
  • As trilhas podem caracterizar efeito de borda a ponto de promover a fragmentação florestal significativamente?
  • As metodologias aplicadas no manejo e monitoramento da visitação e seus impactos são eficazes?
  • A implantação de trilhas para a visitação em áreas com diferentes graus de conservação pode ser um facilitador para a migração de espécies generalistas e animais domésticos ferais, por exemplo, com consequências para as populações protegidas locais?
  • Estrategicamente, a valoração do patrimônio geológico deve ser associada à conservação da biodiversidade, e vice-versa, como forma de preservar estas paisagens?
  • As metodologias aplicadas em Educação e Interpretação Ambiental junto a visitantes em trilhas de áreas protegidas são eficientes para aumentar a percepção ambiental, valoração e interpretação das paisagens protegidas?

São muitas as perguntas e poucas as certezas ante um cenário de franca extinção de espécies. A territorialização promovida pelo uso público deve ter elementos mais consistentes para se somar aos esforços mundiais de preservação de espécies, populações, nichos e hábitats, e não apenas consolidar as áreas protegidas como espaços de lazer, pois a coisificação do cenário e o foco exclusivo no uso de recursos podem constituir-se como fatores a mais de estresse e perigo para populações e ecossistemas ameaçados. Para reverter este quadro, precisamos urgentemente de informações, e acreditamos que a participação de acadêmicos, pesquisadores e técnicos é fundamental para a gestão de áreas naturais.

O II Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas e a Jornada de Iniciação Científica do II CNPMT é uma iniciativa do Grupo de Estudos Ambientais – GEA e do Laboratório de Geoprocessamento – LAGEPRO, do Departamento de Geografia Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O evento será realizado de 16 a 18 de outubro no Campus Maracanã/UERJ na cidade do Rio de Janeiro, em conjunto com o I Colóquio Brasileiro para a Red Latinoamericana de Senderismo, evento este preparatório para a participação nacional no I Congreso de la Red Latinoamericana de Senderismo, que ocorrerá no Chile, em 2014.

Links:

Sobre: http://llcnpmt.wordpress.com/about/
Programação: http://llcnpmt.wordpress.com/programacao/
Inscrição: http://llcnpmt.wordpress.com/inscricao/

 

* Flávio A P Mello (Zen) é doutorando do PPGEO/UERJ.

A Bocaina Ciências Naturais e Educação Ambiental apoia o II CNPMT.



  • andre quimico

    Belo texto Flávio !