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Elementar, meu caro Lineu…

— Por Ivan Luiz Fiorini de Magalhães* —

Mapa representando parte do itinerário de Claudio Gay em sua viagem pelo Chile. O material coletado nessa expedição foi descrito por especialistas em diferentes grupos de organismos. Por Carlos Muñoz Pizarro, “El Itinerario de Don Claudio Gay”, Museo Nacional de Historia Natural, 1944.

 

 

Atualmente, há cerca de 1,5 milhão de organismos descritos pela ciência – e as estimativas do número de espécies ainda desconhecidos variam de 4 a 70 milhões. A organização do conhecimento dessas espécies e a descrição de organismos ainda desconhecidos são de responsabilidade dos taxonomistas. Esse ramo da biologia teve seu início oficial em 1758 com a obra do sueco Carolus Linnaeus, em que espécies animais e vegetais receberam seus nomes científicos formais pela primeira vez. Muitas vezes, o taxonomista é visto como um biólogo que permanece trancado em um museu, identificando espécimes fixados. Porém, a taxonomia envolve trabalhos de campo e investigação histórica dignos de um detetive.

Muitas das espécies conhecidas foram descritas no século 18 e início do século 19. A maioria dos autores que trabalhavam nessas épocas era bastante produtiva – eram comuns trabalhos contendo dezenas ou centenas de espécies novas. Por isso, em geral as descrições eram bastante curtas. Embora muitos desses trabalhos incluam pranchas com lindos desenhos, frequentemente os detalhes que permitem a correta identificação das espécies não estão descritos ou ilustrados. Com isso, os taxonomistas modernos têm muita dificuldade em identificar esses organismos somente a partir das descrições originais. A solução é examinar os espécimes-tipo – os exemplares nos quais os autores originais basearam sua descrição.

 

 

Uma prancha com desenhos de crustáceos do livro “Historia Física y Política de Chile” (1849), organizado por Claudio Gay. Nesse trabalho, foram descritos centenas de espécies animais desse país.

 

 

Assim, depois de consultar as descrições originais, o próximo passo é tentar localizar esses espécimes-tipo. Como muitos dos autores antigos eram europeus, a maior parte dos espécimes-tipo dos séculos 18 e 19 estão em museus da Inglaterra, França e Alemanha. Muitos não estão devidamente catalogados, e encontrá-los nem sempre é uma tarefa fácil. Pior ainda: vários se perderam com o tempo, ou foram destruídos, como alguns que estavam em museus bombardeados durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse caso, a saída é tentar coletar indivíduos da mesma localidade dos espécimes-tipo. Porém, novamente os trabalhos antigos eram muito precários nesse aspecto: há várias espécies citadas para localidades inespecíficas, como “Brasil” ou “América do Sul”. Em alguns casos, é possível descobrir de onde os espécimes vieram quando se conhece o naturalista que os coletou. Era comum que espécies fossem descritas a partir de grandes expedições, como as viagens de Darwin ou de Spix e Martius. Nesse caso, é possível checar o itinerário dos exploradores e tentar descobrir a origem das espécies em questão e, assim, tentar coletar novos indivíduos no local.

Tudo isso é um trabalho de investigação que envolve procurar por bibliografia antiga, visitar museus e ir a campo. Mesmo assim, muitas vezes não se consegue as informações necessárias para se identificar as espécies antigas, e o nome fica “suspenso” até que se consiga descobrir sua verdadeira identidade. No entanto, na maioria das vezes os taxonomistas conseguem identificar e redescrever as espécies adequadamente. Além disso, no processo de visita aos museus e de expedições ao campo, novas espécies e registros geográficos são frequentemente encontrados – e, com isso, vamos completando cada vez mais o quadro da biodiversidade do nosso planeta.

 

 

* Ivan Luiz Fiorini de Magalhães é Biólogo e Mestre em Ecologia pela UFMG, e trabalha com Sistemática, Taxonomia, Ecologia e Biogeografia de aranhas. É membro da equipe técnica da Bocaina Ciências Naturais e Educação Ambiental.

 


 

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Leia também: Pardais da Sardenha, e uma biografia do grande naturalista Werner Bokermann.

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Pardais da Sardenha

— Por Marcos Rodrigues* —

Passer domesticus, por Wilhelm von Wright (1810–1887) [Domínio público], via Wikimedia Commons

 

Pardais. Quem não os conhece no Brasil? Vivem por toda a cidade e têm um canto nada melodioso. Sua coloração também não nos chama a atenção. Quem dá bola para um pardal, afinal? Espécie exótica. Introduzida pelos lusitanos para controlar insetos no Rio de Janeiro. É o que dizem. Lusitanos. Hoje, os pardais, Passer domesticus, estão aí, e nada fazemos por eles, nem contra e nem a favor. Os ignoramos. São quase fantasmas.

Dentro deste contexto, nunca me interessei muito por pardais. Mas durante meu trabalho de graduação, estudando a avifauna das praças de Campinas, junto com meu colega e artista Ricardo Pucetti, tive que observá-los e contá-los.

Cansado de pardais, confesso que pelas minhas andanças na península Itálica jamais prestei atenção a um deles. Foi apenas nestes dias de calor intenso, num verão típico da Sardenha, quando vinha scirocco, o vento quente que chega do Saara, trazendo a agradável marca dos 41 graus centígrados, que reparei um pardal no quintal de casa.

Com o binóculo percebi que o mesmo tinha o peito todo estriado, uma cara mais achatada e um bico levemente mais fino que o nosso Passer domesticus. O que seria um pardal com peito e ventre estriado? Imediatamente fui ao guia Gli uccelli della Sardegna, de Salvatore Caredda, o qual carrego por toda parte, e aprendi que se tratava de Passer hispaniolensis. Para minha surpresa, e segundo o guia, P. domesticus não ocorre na ilha. Há sim, outro Passer, o P. montanus.

 

 

Passer hispaniolensis (acima à esquerda), Petronia sp. (acima à direita), Passer domesticus (abaixo, à frente), Passer montanus (abaixo, atrás), por Alfred Brehm (1829-1884) (Brehms Tierleben. Volume 2) [Domínio público], via Wikimedia Commons

 

Passer domesticus é o nosso pardal comum, que ocorre na maioria das cidades do leste do Brasil. O pardal foi introduzido no Brasil por volta de 1906. O melhor relato sobre a disseminação do pardal no Brasil ainda é do grande naturalista e ornitólogo Helmut Sick, cujos textos a seguir são transcritos de sua obra ‘Ornitologia Brasileira’.

 

“Consta que o pardal foi introduzido no Rio de Janeiro em 1906 por Antônio B. Ribeiro, que trouxe de Leça da Palmeira, Portugal, 200 indivíduos, para soltá-los no Campo de Santana, tendo a aprovação do prefeito Pereira Passos; alegaram colaborar com Oswaldo Cruz na sua campanha de higienização da cidade pois os pardais eram considerados inimigos dos mosquitos e outros insetos transmissores das enfermidades que então grassavam no Rio”.

“Decisiva foi a construção de estradas, sobretudo após a fundação de Brasília (1957) e o subsequente aumento de tráfego. Antes desse desenvolvimento moderno, a disseminação do pardal seguiu sobretudo as poucas estradas de ferro existentes e também os rios como importantes caminhos de comunicação no interior. Vimos em Pirapora (1973) como o pardal viaja nas grandes embarcações, na parte mineira do rio São Francisco, como passageiro clandestino; é possível que assim tenha alcançado Petrolina e Cabrobó (Pernambuco, 1971) na margem setentrional deste rio”.

“Não falta absolutamente iniciativa própria no pardal para conquistar novas áreas; aparece p. ex. em fazendas distantes de núcleos urbanos, como registramos no Rio das Mortes e no Pantanal (Mato Grosso)”.

“Em Belo Horizonte (Minas Gerais) o pardal já era comum em 1912, tendo sido levado para a cidade recém fundada mesmo antes de 1910”.

“Em 1982 pardais foram encontrados no Colégio do Carmo, Balbina, rio Urubu, perto de Manaus, Amazonas. Em Manaus mesmo foi registrado apenas em 1987”.

“Foi uma grande surpresa encontrar pardais no Atol das Rocas, ilhas sem água potável (250 km do continente, 150 km a oeste de Fernando de Noronha), em março de 1971, observando-se um casal junto às ruínas da casa do faroleiro, com a plumagem em péssimo estado. Conseguiram sobreviver, oportunistas que são, comendo pequenas beldroegas-da-praia (Portulacaceae?) e pulgões-da-praia (minúsculos crustáceos). Reproduziram-se, e dez anos depois (1985) foram contados 16 indivíduos, aparentemente em estado razoável de saúde”.

 

Achei que fiz uma grande descoberta! Estou num local onde não existe Passer domesticus! Mas existem outros Passer. Isso não é incrível? Agora procuro avidamente por um Passer, seja ele hispaniolensis ou montanus. Nada como o novo, mesmo em se tratando de um mero pardal.

 

Passer montanus, por Laitche [Domínio público], via Wikimedia Commons

* Marcos Rodrigues é doutor em Zoologia pela Universidade de Oxford. Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Minas Gerais, onde chefia o Laboratório de Ornitologia, e é curador da Coleção Ornitológica.

Werner Carlos Augusto Bokermann (1929-1995)

Uma vida de descobertas

— Por Marcelo Bokermann* —

Werner C. A. Bokermann, filho de pais alemães, nasceu no dia 04 de julho de 1929 na cidade de Botucatu, São Paulo. Ainda criança, tinha um grande fascínio pela natureza, observando e colecionando diversos grupos de animais.

Aos 17 anos de idade, conseguiu um emprego de servente de limpeza no Museu de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, hoje Museu de Zoologia da USP. Após o horário de trabalho, aproveitava para apreciar as coleções do museu, bem como para se beneficiar do contato com os pesquisadores daquela instituição.

Com menos de 20 anos de idade já acompanhava a equipe do museu em diversas expedições científicas. Posteriormente, assumiu o cargo de técnico de laboratório, ficando encarregado de organizar a coleção de anfíbios, grupo ao qual se dedicou no começo de sua jornada como pesquisador.

 

 

Devido às grandes dificuldades financeiras por que passou durante boa parte de sua vida, só pôde completar seu curso superior com quase 50 anos de idade, o que o obrigou a se tornar um autodidata por excelência. Este fato contribuiu para que desenvolvesse ideias muito próprias e originais a respeito da biodiversidade de nosso país. Werner observava a natureza de maneira ampla, bem ao estilo dos naturalistas clássicos, como Darwin, Wallace e outros.

 

Sua vida foi repleta de descobertas: 68 novas espécies de anfíbios, 43 de coleópteros, 114 trabalhos publicados em Zoologia. Suas coleções particulares também merecem destaque: a herpetológica, com cerca de 60 mil exemplares, possuía vários tipos, principalmente das espécies que descrevera; e a entomológica, com seis mil exemplares. Ambas estão hoje depositadas no Museu de Zoologia do Estado de São Paulo. Também montou uma coleção ornitológica com cinco mil exemplares, a qual se encontra tombada no Museu de História Natural de Taubaté.

Mais de uma dúzia de espécies, entre peixes, anfíbios, mamíferos e aves foram descritas por outros pesquisadores, e levam seu nome como homenagem. Sua vida há de ser exemplo a inúmeras gerações, principalmente aos que se dedicam com amor e resignação ao trabalho a favor da humanidade por meio das Ciências Naturais.

 

Gentilmente cedida por Ciro Albano.

Soldadinho-do-araripe, Antilophia bokermanni, piprídeo endêmico do Ceará, batizado em homenagem ao naturalista Werner Bokermann. A espécie é classificada como “criticamente em perigo”. Foto: Ciro Albano.

 

 

 

Bokermannohyla martinsi é uma das poucas espécies de vertebrados endêmicos do Quadrilátero Ferrífero. Esta perereca, que foi descrita em 1964 pelo naturalista Werner Bokermann, com base em exemplares coletados na Serra do Caraça, habita matas de galeria de riachos encachoeirados de água limpa e oxigenada. Atualmente, a perda de seu hábitat devido à expansão urbana e às atividades de mineração são as principais ameaças à sobrevivência da espécie. Foto e legenda: Felipe Leite

 

* Marcelo Bokermann, filho de Werner, é biólogo e educador ambiental do SESC São Paulo.